Paul Schilte: Um holandês pedalando em Curitiba

Curitiba começou nos últimos meses a desenvolver um trabalho com universidades da Holanda visando a melhoria da ciclomobilidade na cidade. A Holanda, como amplamente sabido, é referência mundial nas soluções para deslocamentos através da bicicleta. Para sabermos um pouco do trabalho desenvolvido por essa parceria, e também um pouco da cultura e a forma de pensar dos holandeses, entrevistamos em abril Paul Schilte.

Paul é graduando em Engenharia Civil na Universidade de Twente, em Enschede, no leste holandês. Está colaborando no desenvolvimento de um sistema de apontamento dos lugares mais cicláveis de Curitiba. Com o sistema em funcionamento, teremos um mapa que aponta numa escala de verde a vermelho quais trechos do seu trajeto na cidade são melhores ou piores para se pedalar.

Mapa da Holanda
Enschede, Holanda

Com muito bom humor, Paul nos relatou um pouco sobre as diferenças entre pedalar no Brasil e na Holanda e suas opiniões sobre a mobilidade por bicicletas comuns e bicicletas elétricas.

Eleeze: Paul, você pedala lá na Holanda?

Paul: Todos os dias!

E: É uma pergunta meio estranha para se fazer a um holandês, não é?

P: Sim, é mesmo. Na minha família, todos temos bicicletas. Meus pais têm as deles. Mas isso não significa que não temos carro. Eu sei dirigir, meus pais têm carro, mas nós só usamos quando precisamos.

E: As pessoas usam bicicleta pra ir ao trabalho na Holanda?

P: Sim, muita gente faz isso. Se você mora a 10km do seu trabalho, você vai pedalando. No meu colégio tinha um cara que pedalava 25km pra ir e 25km pra voltar.

E: Nossa, 50km por dia?

P: Sim, é loucura! Algumas pessoas fazem isso. Eu tinha que pedalar 4km, ok, mas 25… É muito!

E: Aqui no Brasil, especialmente em Curitiba, as pessoas se perguntam como fazer quando chove. Como é isso pra vocês, lá na Holanda?

P: Bom, quer dizer que você está com azar naquele dia… [Risos] Mas eu não pego ônibus por causa disso. Eu tenho um aplicativo no celular que me diz a previsão do tempo de 5 em 5 minutos. Se ele disser que vai chover na próxima meia hora, significa que eu tenho que me apressar, mas se disser que a chuva está acabando, é só esperar um pouco.

E: E se você precisa encarar a chuva, você usa alguma roupa especial?

P: Não… Eu me molho. Não gosto de usar guarda-chuva. A maioria das pessoas usa guarda-chuva, e aqueles ponchos fazem você parecer bobo [risos], mas o poncho pode proteger bastante, sim, principalmente do vento.

Ciclistas pedalando na chuva em Utrecht, na Holanda
Ciclistas pedalando na chuva em Utrecht, na Holanda

E: É permitido levar as bicicletas nos ônibus lá?

P: Sim, você pode colocar bicicleta nos ônibus, mas não é uma boa ideia quando o ônibus está lotado. É mais comum levar as bicicletas nos trens, que têm lugares específicos para as bicicletas. Tem também as bicicletas dobráveis, que o pessoal só dobra e leva dentro do ônibus e não precisa pagar a mais por isso. Pra levar as bicicletas grandes você precisa pagar uma taxa a mais.

E: Você acha possível mudar a cultura da bicicleta no Brasil, que às vezes parece ser contrária ao uso da bicicleta?

P: É possível sim, mas acho que vai demorar algum tempo. Será um trabalho duro chegar até lá. A cada dia que passa eu fico mais surpreso pela quantia de carros que há aqui em Curitiba. Pra ir pra casa eu passo por um bairro tranquilo, sem muitas pessoas caminhando, mas logo aparece uma rua com quatro faixas de carros. Eu tento atravessar a rua e são vários carros passando “vrum, vrum, vrum” [enquanto gesticula com a mão simulando os carros passando rápido].

Há muitos carros aqui. Acho que cada estudante tem um carro aqui, não é verdade? Você, por exemplo, tem seu próprio carro? [apontando pra nossa entrevistadora, que responde que sim]. Pois é, na Holanda eu não conheço um estudante que tenha seu próprio carro. Lá todo mundo só pedala.

Lá também tem um programa que você pode escolher entre não pagar passagem de trem no final de semana ou durante a semana. Então eu posso visitar meus pais na minha cidade de trem. E visitar meus pais seria o único motivo pra eu ter um carro.

Ter um carro na Holanda é muito caro. O preço da gasolina é muito alto. O problema do estacionamento, no entanto, é mais comum nas grandes cidades. Na cidade que eu vivo as pessoas deixam o carro na rua e pronto.

E: E como você acha que se poderia incentivar as pessoas a deixar de usar o carro?

P: A maneira é fazer os deslocamentos de carro serem mais caros e mais difíceis. Uma coisa que se pode fazer, por exemplo, é reduzir o número de faixas de carros. Existe um estudo que diz que quando você adiciona uma faixa de carros numa rua não haverá resultado positivo. O que vai acontecer é somente mais gente pensar “olha, tem mais espaço para os carros, acho que eu posso comprar um pra mim”. Mas se você tira uma faixa e coloca uma ciclovia lá, obviamente vai haver menos carros, pois eles ficarão presos em algum outro ponto da rua.

E: Pensar dessa maneira é natural pra vocês? Porque aqui muitas pessoas enlouqueceriam tirando faixas de carros. Aqui muitos pedem mais viadutos e trincheiras.

P: Sim, sim. Com certeza existe uma diferença de cultura.

E: Que outras impressões você teve de Curitiba?

P: Eu não esperava que houvesse uma infraestrutura para bicicletas como a que vocês têm aqui. Fiquei surpreso com as ciclovias que eu pedalei aqui. Da minha casa [Portão] até a Setran, eu pego a ciclorrota [Rua Baltazar Carrasco dos Reis] e depois a ciclovia [Ruas Conselheiro Laurindo e Mariano Torres]. Meu caminho é de aproximadamente 90% de caminhos feitos para bicicleta. Aqui há alguns morros, o que praticamente não há na Holanda. Percebi também que tem muita mountain bike na rua. Na Holanda, as pessoas só usam bicicletas de uma marcha, sem a suspensão dianteira. Eu tenho uma mountain bike mas eu só uso quando eu vou pro mato e eu quero pegar mais velocidade e a suspensão será útil. Nas cidades não há necessidade, porque basicamente não há morros.

É claro que os lugares são diferentes [aqui e na Holanda]. Mas no centro de Curitiba é bom. A ciclovia é muito bacana. Mas, por exemplo, hoje eu fui atingido por uma moto…

E: O quê? Você quase foi atingido por uma moto?

P: Não, eu FUI atingido por uma moto. Eu estava pedalando na minha pista, próximo à rua, e um motociclista não olhou e virou sobre a ciclovia pra acessar algum comércio. Simplesmente bateu na minha perna. Ele também ficou um pouco assustado. Eu tive sorte, acho que poderia ter sido pior. Na Holanda isso nunca tinha acontecido comigo, e eu estou aqui faz uma semana e já aconteceu.

E: Ele estava distraído?

P: Não, acho que simplesmente não olhou. Eu estava pedalando e se ele tivesse olhado [para a ciclovia], ele teria me visto.

Percebi que as pessoas caminham na ciclovia aqui. E aí você toca a campainha e elas não estão nem aí, só caminham.
Na Holanda não é comum caminhar nos espaços das ciclovias, aqui eles fazem isso.

Ciclovia da Rua Mariano Torres
Ciclovia da Rua Mariano Torres, em Curitiba

E: Conte pra gente um pouco sobre o uso das bicicletas elétricas na Holanda.

P: Eu acho que as pessoas mais velhas, que têm menos força e ainda querem pedalar, elas usam a bicicleta pra se locomover na cidade, pra fazer compras, por exemplo. Como vocês viram nos dados que eu enviei, o uso das e-bikes cresceu bastante na Holanda. Em 2009 em torno de 5% das bicicletas vendidas eram elétricas. Hoje em dia está em torno de 20%. As pessoas mais velhas pedalaram a vida inteira, ainda querem pedalar e não tem a mesma energia, então eles usam bicicletas elétricas. As pessoas de 40 e poucos anos usam para ir ao trabalho, não para lazer.

E: Você acha que é uma boa opção usar uma bicicleta elétrica aqui no Brasil? Você pedalou tanto a comum quanto a elétrica, talvez tenha uma opinião…

P: Sim, não só os mais velhos, mas as pessoas de meia idade e os mais novos… Eu tenho que subir alguns morros pra ir pra casa, então é um tanto cansativo. E eu acho que seria muito bom para as pessoas irem para o trabalho. O clima de vocês é bom, a maior parte da cidade é plana. Algumas têm morros, e eu acho que as pessoas podem ficar assustadas com os morros. “Oh, os morros, eu não quero os morros”, então se elas tivessem uma bicicleta elétrica, sim elas definitivamente conseguiriam lidar com isso.

E: Que dicas você daria aos brasileiros para que tenhamos mais cidades cicláveis?

P: Eu diria para serem mais cuidadosos ao dirigir, para respeitar mais os ciclistas. Mas eu entendo, os ciclistas também são agressivos em alguns momentos, e os motoristas podem ficar irritados por isso, tipo pensando “danem-se vocês, ciclistas”.

E: Então é tanto um respeito dos motoristas com os ciclistas como dos ciclistas com as leis?

P: Sim, toda hora vejo pessoas pedalando no meio dos carros. Eu acho que os motoristas podem ficar irritados e aí deixam de respeitá-los. É como um ciclo que segue acontecendo. Eu não sei quem deveria começar. Talvez seria mais fácil para os ciclistas começarem, porque são em número menor. Aí as pessoas nos carros poderiam pensar “ei, ciclistas são pessoas bem legais” e começariam a respeitar mais. Depois, começariam a ver que é seguro pedalar e a pensar em comprar uma bicicleta.

Fontes das imagens:
Arquivo próprio,
https://bicycledutch.wordpress.com/2015/12/08/rush-hour-in-the-rain,
https://www.bemparana.com.br/noticia/422865/ciclovia-da-regiao-central-de-curitiba-fica-mais-larga

Acesse o termo de entendimento entre Curitiba e as instituições parceiras do projeto em que o Paul trabalha:
http://multimidia.curitiba.pr.gov.br/2015/00172182.pdf

Para saber mais sobre a ciclomobilidade em Curitiba:
http://www.curitiba.pr.gov.br/maisbici

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